Entrevista: A Virtualização das Relações Sociais

in Flickr, Chris Pirillo, 2006

Com: Ciberespaço

Disciplina: Educação e Sociedade em RedeTópico 5: A Virtualização das Relações Sociais
Docente: Prof. António TeixeiraMestrado em pedagogia do Elearning – Universidade Aberta

Entrevistadora: Bom dia Ciberespaço. Obrigada por ter aceite o convite. Pode falar-nos um pouco sobre si?

Ciberespaço: Bom dia. Obrigada pelo convite.

Bem, sou “um novo meio de comunicação que surge da interconexão mundial dos computadores” (Levy, 2000), mas sou também a informação que este abriga, bem como o conjunto de pessoas que aqui navegam e contribuem para o mesmo. Sou um novo espaço de comunicação, sociabilidade, organização e transação.

Os meus pais são os seres humanos, que desde que existem têm contribuído para a amplificação do seu próprio poder, através da invenção, produção, utilização e interpretação de diferentes formas as técnicas, o que resultou numa revolução tecnológica. Esta criação ultrapassa a tecnologia física. Segundo Chatfield (2012), as “tecnologias intelectuais” denominadas por Daniel Bell, permitem-nos desenvolver as nossas mentes.

Nasci num mundo virtual, que coexiste com o mundo real. Aliás, mais do que coexistirem, ambos se transformam e evoluem mutuamente. Segundo Davies, citado por Inês Amaral (2007, p. 2276), este mundo pode ser dividido em cinco categorias: o mundo social (como espaço de sociabilização), a educação, a expressão política, o treino militar e os jogos comerciais. Mas as características de partilha, imediatismo, interatividade, persistência e socialização são comuns a todos eles.

Estou a crescer numa sociedade em rede, redes estas “operadas por tecnologias da comunicação e informação, fundamentadas na microelectrónica e em redes digitais de computadores que geram processam e distribuem informação a partir do conhecimento acumulado nos nós dessas redes” (Castells, 2007, p.20).

A minha “língua” é universal e digital, o que promove a integração.

O meu principal atributo é a cibercultura, como conjunto de técnicas, de práticas, de atitudes de modos de pensamento e de valores, universal pois engloba tudo e todos, ou seja, implica a presença virtual da humanidade que “dá as mãos em redor do mundo”, é infinita.

Quanto às minhas características, Inês Amaral diz que eu sou desterritorializado, imaterial, interactivo e aconteço em tempo-real.

Entrevistadora: Afinal quem habita o seu espaço?

Ciberespaço: As pessoas moram aqui, com o seu online self transitório, múltiplo, em permanente processo de (re)desenvolvimento, construído pela linguagem e pelas interações, com base em questões emocionais e comportamentais (Amaral, 2007). Estas podem ser heroínas “das suas próprias histórias”, “experimentar o progresso e o triunfo”, “melhorar a sua satisfação diante da vida” ou “esconder-se diante de situações insuportáveis” (Chatfield, 2012), numa omnipresença tecnológica.

Estas pessoas relacionam-se, como necessidade primitiva comum do ser humano, idealmente com base no reconhecimento do outro, da aceitação, da ajuda, da cooperação, da associação e da negociação (Levy, 2000).

Estas relações, com base numa comunicação horizontal, têm as suas oportunidades e os seus riscos. Como oportunidades temos a possibilidade dos seres humanos se tornarem mais sociáveis, transpondo o contacto virtual para contactos pessoais, reais, a distância física que é minimizada, a integração de todos (maiorias ou minorias). Como riscos, podem surgir a dúvida, resultante da aparência, o medo da solidão, o desejo excessivo do reconhecimento, a falta de referências e a dependência.

Em conjunto e como parte integrante das pessoas, estão as informações. Como Levy (2000) nos referiu, o “dilúvio informacional” inundou a vida de todos.

Esta informação perdeu a sua autoridade, que estava nas mãos de ou sob o poder de alguns pequenos grupos (Almeida, Marinho & Alcântara, 2017). Esta informação não é apenas partilhada pelos mass media de forma unidirecional e vertical, mas também de modo bidirecional e horizontal característico dos self media, como “auto-edição ou informação não profissionalizada produzida pelo utilizador comum” (Amaral, 2018). Ou seja, o emissor é também o recetor e vice-versa, num processo de personalização da comunicação.

Entrevistadora: Quais são as suas preocupações atuais?

Ciberespaço: No que respeita aos “meus habitantes”, os seres humanos, existem várias preocupações. Para começar a imersão tóxica. Estar conectado é positivo no sentido em que os permite velocidade e amplo alcance, pesquisa, aplicação de conhecimentos, e contactos em poucos segundos. Estar ligado, como defende Chatfield (2012) “faz parte da rotina da maior parte das pessoas”, mas os momentos conectados estão a começar a ultrapassar os momentos desconectados. Ou seja, as pessoas estão a dar à tecnologia uma importância e um poder descontrolado, roubando-lhes tempo de reflexão, de criação de ideias próprias e de memória. Nicholas Carr, citado em Chatfield refere que “quando passamos a usar a Internet em substituição da memória pessoal, evitando assim o processo de consolidação, corremos o risco de esvaziar a nossa mente de suas riquezas”. O ser humano prospera através da partilha das suas histórias, da profundidade dos seus sentimentos e do respeito pelas singularidades alheias. Esta imersão tóxica também está contribuir para a ausência de tédio nos meus jovens “habitantes”. O tédio é muito importante na educação e formação do ser humano, sobretudo na capacidade de inventar e na gestão de frustrações.

O narcisismo é uma questão preocupante dos seres humanos virtuais, que, por vaidade, valorizam mais o que aparentam do que aquilo que realmente são, perdendo os valores centrais da vida, nomeadamente a identidade social, a capacidade de se relacionar de modo gentil, as oportunidades de se expressarem individualmente e de forma sincera, o poder de partilhar as suas experiências. Karnal (2016) lança para o ar a expressão o “narciso isolado” que grita por atenção, para que o observem (Karnal, 2015). Pois este narcisismo surge muitas vezes para mostrar que a vida é fantástica, mas na realidade ela é insuportável e solitária. Mostram uma felicidade falsa, que parece ser obrigatória. O que me faz questionar: Quem é quem? Porque não são todos genuínos e transparentes? Para quê aparentar em vez de ser?

A despersonalização ou melhor a esquizofrenia social, da qual resulta necessidade de “estar presente com tantas personagens em tantos espaços” é um assunto a ser discutido. O fenómeno dos Chinese Boy, sucesso do YouTube, é mais uma máscara, um simulacro que Baudrillard tanto defendeu, que existe como real, criado pela rede, para a rede. “Assim como as cidades funcionaram como ímãs para a maior parte da população ao longo do último século, o reino digital está levando as pessoas ao ponto mais intenso de suas possibilidades: simulações que nos tocam de forma mais profunda do que as meras experiências reais” (Chatfield , 2012).

No que respeita à informação e à perda da autoridade, significa que a excelência deu lugar ao amadorismo e autopromoção? O filtro do especialista foi substituído pela escolha de massa, com argumentos de fácil digestão e recorrendo à cultura popular? A popularidade da informação é a nova autoridade que é medida e determina a importância que deve ser dada.

Entrevistadora: Quais os conselhos que gostaria de partilhar?

Ciberespaço: Inspirado em Leandro Karnal, o primeiro conselho que dou a cada um dos seres que me habita é tentar descobrir quem é você, para que não seja falso, vazio e comum, contribuindo para a autenticidade, genuinidade e transparência. Não exiba a felicidade falsa, ninguém é sempre feliz. Como tal, não procure refúgio na vida virtual e tente mudar a sua vida real.

Aos meus “habitantes” aconselho-os a colocar a tecnologia no lugar onde ela pertence. São sempre bem-vindos ao meu “espaço”, consolidando o tempo desconectado e o tempo conectado, num equilíbrio salutar. O tempo conectado não deve ser condição inevitável e ininterrupto. Devem usufruir dos momentos desconectados e ensinar os vossos dependentes a fazer o mesmo, de forma a aproveitar ao máximo o mundo à vossa volta e uns aos outros O segredo é priorizar. Como Cortella (2017) refere no início de uma entrevista, “não sacia a fome quem lambe pão pintado”. O que deve ser valorizado são as experiências vividas por aqui.

Sempre que estiverem conectados há várias atitudes a ter. A primeira é duvidar. Duvide das “pessoas” e dos perfis que constroem. Nem todos são genuínos, transparentes ou verdadeiros. Duvide das informações. Nem todas são fidedignas, nem todas são fiáveis. Mário Cortella cita Milo Fernandes numa entrevista sobre redes sociais de um modo extraordinário: “se não tem dúvidas é porque está mal informado”. Depois de duvidar ou suspeitar chegou o momento de falar sobre partilha. Não partilhe nada que não partilharia na vida real é a melhor orientação, de modo a controlar a vontade de exposição que pode ser prejudicial.

Quanto às informações, não tema pela falta de autoridade, pois na prática ela foi reinventada. Chatfield (2012) pede para que haja um voto de confiança no meu público digital. Respeitando o princípio da argumentação honesta e na perceção do ser humano, que distingue o que é excelência, tem sentido crítico e criatividade, através da sua individualidade e de uma vontade sincera de aprender, este terá a capacidade de “separar o trigo do joio”. O meus “habitantes” não são meros receptores de informação, são ativo, interativos e controlam a informação.

Para terminar e mencionando as ideias de Zigmunt Baum, o segredo passa por conscientizar a geração digital, vocês, seres humanos. Só deste modo poderão evitar o acidente integral tão defendido por Paul Virílio.

Entrevistadora: Muito obrigada pela suas palavras e sobretudo por explorar uma questão tão atual que é a virtualização das relações sociais, a autenticidade e a transparência.

Referências Bibiográficas

Almeida, M., Marinho, V., & Alcântara, A. (2017, July 1). Internet: uma breve análise sobre as possibilidades do ambiente online nas relações contemporâneas. Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares Da Comunicação. http://www.portalintercom.org.br/anais/nordeste2017/resumos/R57-1097-1.pdf

Amaral, I. (2020). A @migração para o ciberespaço – a dimensão social dos mundos virtuais. Slideshare.Net. https://pt.slideshare.net/ciberesfera/a-migrao-para-o-ciberespao-a-dimenso-social-dos-mundos-virtuais

Araújo, A. (2015). Leandro Karnal – As redes sociais potencializam o poder do “eu” ? [YouTube Video]. In YouTube. https://www.youtube.com/watch?v=0zBGSik_XwA

Castells, M. (2007). A sociedade em rede (Vol. 1). São Paulo: Paz e Terra.

Chatfield, T. (2012). Como viver a era digital (B. Fiuza (trans.); p. 112). Editora Objetiva. (Original work published 2012)

Koehler, C., & Carvalho, M. J. S. (2013). O público e o privado nas redes sociais: algumas reflexões segundo Zygmunt Bauman. Revista Espaço Pedagógico20(2). https://doi.org/10.5335/rep.2013.3555

Levy, P. (2000). Cibercultura. Piaget.

PingaFit. (2017). MARIO SERGIO CORTELLA – REDES SOCIAIS [YouTube Video]. In YouTube. https://www.youtube.com/watch?v=ff7l2PeDtws

Sinagoga Ohel Yaacov. (2016). Leandro Karnal – “Felicidade e redes sociais” – Sinagoga Ohel Yaacov [YouTube Video]. In YouTube. https://www.youtube.com/watch?v=ZFAStMlbOiI

Publicado por Célia Ribeiras

Estudante da UAB, mãe, professora, filha e amiga...

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